Logística reversa de eletrônicos – um mercado a explorar

A legislação se tornou, nos últimos anos, muito mais rígida em relação aos resíduos e rejeitos produzidos pela indústria. A chamada logística reversa tornou obrigação para setores inteiros a reformulação das cadeias, de modo a reaproveitar e dar fim a rejeitos, resíduos e diversos tipos de sucata não apenas resultados do processo de fabricação de diversos produtos, mas também do descarte gerado pelo próprio consumidor. Entre essas sucatas, o descarta de componentes e partes de eletrônicos talvez mereça atenção especial. Esses rejeitos são processados de modo heterogêneo e, muitos deles podem ser reaproveitados como peças, outros são reciclados somente após seu desmonte e separação.

Em estudo recente encomendado pela Secretaria de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) estimou os volumes de sucata de eletrônicos a ser produzido no Brasil não apenas em 2014, mas também no ano que vem. Uma coisa é ponto pacífico: esse volume só tende a aumentar, com o uso mais intenso de computadores, celulares e aparelhos pela população. Este ano, o Brasil deverá descartar 1,1 milhão de toneladas desses resíduos, passando para 1,25 milhão já em 2015.

Os grandes centros urbanos – de acordo com o estudo, as 150 maiores cidades do país – irão gerar sozinhos dois terços desse volume. A organização dessas cadeias envolve não apenas as indústrias produtoras desses bens, mas também o poder público de diversas regiões. A expectativa é que o transporte e seleção desses resíduos gere enorme demanda logística nos centros urbanos a partir deste ano. Os rejeitos eletrônicos são classificados, para que se tenha ideia, em quatro grandes grupos:

  • Linha branca – geladeiras, freezeres, máquinas de lavar, fogões, condicionadores de ar e similares;
  • Linha marrom – TVs e projetores os mais variados tipos e tamanhos, filmadoras, aparelhos de VHS, DVD e Blu-ray e aparelhos de som;
  • Linha azul – pequenos eletrodomésticos, como batedeiras, secadores, ferros de passar, multiprocessadores, liquidificadores e similares;
  • Linha verde – microcomputadores, laptops, tablets, celulares e variações.

Mais tecnologia, menor vida útil

Ao contrário de outros segmentos, o setor de eletrônicos e tecnologia produz aparelhos cuja vida útil é cada vez menor – não se trata necessariamente de uma questão de qualidade. Com o maior e mais rápido avanço da tecnologia, itens são rapidamente substituídos, gerando descartes em velocidade cada vez mais intensa. Segundo o estudo, enquanto a vida útil de aparelhos da linha branca e da linha azul acaba girando em torno de 10 a 15 anos, essa média  cai para até 5 anos no caso de itens da linha marrom e apenas 2 ou 3 anos para itens da linha verde, em especial celulares e smartphones.

Ou seja, quanto mais a população brasileira avançar em seus hábitos de consumo, maior será a velocidade de substituição de itens como esses e também maior o desafio logístico. Os materiais resultantes do desmantelamento desses produtos são de diversas naturezas distintas: metais, vidros e plásticos principalmente, mas muitos desses produtos possuem resíduos contaminantes, como baterias, por exemplo.

Em alguns países, mesmo na América Latina, programas inteiros são elaborados pelas autoridades para o descarte e substituição de bens da linha branca principalmente. Equipamentos de maior porte e com volumes consideráveis de aço e outros metais, geladeiras, fogões e máquinas de lavar são transformados em sucata metálica para uso por siderúrgicas – seu transporte, do consumidor até a usina, passando pelo processador de rejeitos, envolve a criação de complexas e específicas rotas logísticas, o que implica em um mercado novo e lucrativo para transportadores.

Desenhando rotas

O estudo ainda mostra o “caminho” percorrido pelos rejeitos dessa natureza, do consumidor até seu destino final. São várias etapas distintas, com desafios e oportunidades de transporte em cada um de seus passos:

  • Transporte até ponto de coleta – o próprio consumidor geralmente leva tais produtos até um ponto de descarte e recebimento, porém está se tornando mais comum em cadeias de produção de itens maiores, como geladeiras, a criação de sistemas de retirada e transporte de produtos até áreas de armazenamento. Itens da linha branca facilmente chegam ao peso de 50 kg e também televisores, cada vez maiores, não são fáceis de transportar;
  • Recebimento e armazenagem – os pontos de coleta precisam organizar e acomodar esses produtos até que sejam destinados a áreas de processamento ou desmantelamento – isso demanda capacidade de armazenamento e estocagem;
  • Transporte até triagem – com o acúmulo de volumes nesses pontos de coleta, remessas frequentes são necessárias até pontos de processamento e triagem;
  • Transporte até reciclador – após separado, cada material resultante da triagem precisará ser encaminhado a um reciclador distinto. A mesma demanda por transportes se repete, mas dessa vez multiplicada pela diversidade de materiais a ser reaproveitados;
  • Pós-reciclagem – após reciclagem, renova-se o produto e ocorre a reinserção na cadeia produtiva.

As oportunidades, como se pode ver, existem tanto para pequenos transportadores autônomos e particulares, até mesmo “carretos” urbanos, até grandes empresas e frotas logísticas, dispostas a atuar como parceiros nas fases de triagem e reciclagem. Em um mercado cujas prospecções só apontam para um crescimento estrondoso, talvez seja esse o momento de pensar em alternativas e soluções, e porque não, em como multiplicar ganhos atuando no viés de transportes desse segmento que surge.

admin
thiago.paim@cargobr.com
2 Comentários
  • Alexandre
    Posted at 13:46h, 11 março Responder

    Parabenizo matéria. Já vivenciei operação de logística reversa de material de grande monta a nivel Brasil e hoje entendo o desafio logístico. É emergente a busca de saídas alternativas dentro desta ernome cadeia pós consumo. A responsabilidade compartilhada é a saída vigente. Estou como pesquisador e atento aos novos projetos neste setor. A consciencia da sustentabilidade deve ser agora muito mais na prática do que no discurso.

  • Eduardo Seiroz
    Posted at 16:26h, 16 março Responder

    Muito Legal!

    No entanto, o mais importante é a educação quanto ao uso correto do descarte/ rejeito e, divulgação dos locais adequados para tal.

    Pois aqui onde resido(Recife), deixa um pouco a desejar quanto ao assunto em tela.

    Atenciosamente,

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